Flor de alho
Às vezes passamos a vida inteira procurando flores sem perceber que algumas delas chegam disfarçadas escondidas em cascas camadas pétalas capas sai por aí em busca dessas gatas capazes de preencher os vazios do meu jardim mas encontrei dentes brancos ásperos improváveis ensinou a delicadeza das rosas perfume nunca me disseram que o extraordinário também brota de uma raiz que arde na língua foi então que deixei o existir não como tempero mas como propósito promessa enquanto eu tava na louça respondi as mensagens organizava casa e fingia entender o ritmo previsível dos dias o broto do alho crescer em silêncio em vez de firme atravessava aquela capa branca aquela pele seca como que desafia todas as estatísticas da beleza sem pedir licença passei tanto tempo procurando flores que esqueci de olhar pras outras cores e as outras matizes das raízes que podiam servir aí eu comprei um alho não um vaso não uma muda não uma promessa de jardim apenas dentes brancos esquecidos no fundo da sacola no mercado e ainda assim havia neles uma primavera inteira esperando coragem pra florescer quem foi que decidiu que só as rosas merecem contemplação o mundo me ensinou a admirar pétalas e desprezar cascas colecionar perfumes e ignorar que arde nunca me contaram que algumas flores nascem primeiro como tempero e só então depois mais velho come mistério ali deixar ali invadir o alho ele fez o que só os seres livres sabem fazer enquanto ela vai lavar louça enquanto o relógio cumprir seu ofício e a rotina um verde atravessava o branco uma linha fina rasgava o previsível. Um eixo reto rompia o concreto da lógica o invisível inaugurava ali na minha frente o visível deslumbrante incontrolável domesticável e interessante talvez eu também tenha passado a vida brotando em lugares quando esperavam apenas utilidade tudo aquilo que cresce fora do molde recebe o nome de exagero se percebe que tudo que não cabe no eixo não merece a próxima estrofe O comum ama a poda o molde a exceção a o vento o tempo a permissão e o movimento Por isso o extraordinário quase sempre nasce já perseguido contido estranho esse primeiro depois corrige-se silencia-se mas ainda assim continua crescendo como o vento indo seguindo em movimento mesmo que lento Olhe de novo aquele dente de alho na bancada vejo muito mais do que alimento ali dentro tem uma arquitetura improvável imprevisível inolvidável . Ali vejo a mim Há dias em que a minha identidade também romper a minha própria pele sem maturidade sem tempo empurrando pra fora uma versão que não cabe em artigos estatísticas conselhos as nem memórias Enquanto o mundo busca uma direção e definição tenho cultivado desvios necessários enquanto esperam flores e floresço os meus amores vendo brotar o alho A sabores que alimentam o corpo outros nos invadem de coragem desde então passei a desconfiar de tudo que parece simples demais talvez os detalhes de Deus estejam escondidos dentro do ordinário pra proteger a beleza sublime dos olhos apressados Talvez os milagres não tenham pétalas Talvez as cascas sejam só metáforas Quem sabe a flor que eu sempre procurei nunca esteve no jardim mas naquilo que sempre olhei como cascalhos. Só então eu entendi que florescer não é produzir beleza, isso já se era esperado! Pra mim o resultado do espanto é de fato o fardo que eu trago. Flor - De alho.
O Deco, O Dé, O Gui, O Sonhadorzinho.
Sonhadorzinho
Uma boa leitura, um momento de frescura pra uma vida dura.








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