Prata da casa

Hoje eu me reconheci enquanto limpava um castiçal de prata envelhecido. Enquanto insistia no atrito- ora suave com bucha fina, ora ríspida com a grossa. Permaneci atenta - sem piscar. Tecendo pensamentos barulhentos sem acreditar no que eu estava fazendo. Quanto mais força eu direcionava. Na fricção da limpeza. Mais raiva acumulava. Ali, na pia. Enquanto os resíduos escorriam, eu me permiti sentir a leveza no peito, de esvair a dor e a beleza, contrastantes da natureza indomável, que se misturavam na minha frente, no ralo, tão de repente quanto combinado. Quanto mais leve a mão da moça, mais polida fica a prata. Vendo as nuances dos brilhos refratados entre a água corrente da bica e as camadas sobrepostas uma sobre as outras. O castiçal, permanecia, fisicamente igual. De prata! Mas o brilho mudava de acordo com a camada e com a quantidade de água que jorrava por cima de cada gota. Nenhuma à toa, pareciam que todas estavam ensaiadas. Eu me vi ali. No limo. No brilho. Na prata. No atrito. Na água. Quase um rio. E sorri sozinha, como quem tivesse lembrado de alguma piada contada outro dia por outra menina engraçada. Sentei ainda risonha, completamente obcecada pela quantidade de cores que existem na mesma matéria. Dali me vi refletida num espelho da sala, uma mulher diferente da que eu era… pelo menos diferente do que eu esperava ver de mim… um pouco mais brava… talvez menos prática. Densa e intensa, mas etérea e consolidada. Entendendo que nenhum membro é mais ou menos obsceno quando não comparado. Somos pratos rasos, feitos pelos mesmos minérios, polidos pelos mesmos mistérios e originados da mesma prata. Não dá pra levar tão a sério! Mas também não se ensaia uma graça. Talvez o porque dos porquês esteja em equilibrar o eixo da balança que dança entre a raça e a casta. No fim, o que importa é se reconhecer, mesmo que em diferentes camadas, independentemente do tônus da polida que fora feita em sua casca. Então foca no que brilha. No que emociona! No que impacta.

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Sonhadorzinho

Sonhadorzinho
Uma boa leitura, um momento de frescura pra uma vida dura.

Meu.

É meu, para mim! Quando escrevo, escrevo de mim para eu mesmo, expondo as vontades e dores que tenho na minha individualidade, sem necessidade de explanação, só como uma forma de retirá-los de dentro de mim, sem ter de esquecê-los no tempo. Guardo aqui, os momentos que chorei e sofri, e até os que sorri, para se precisar, lembrar. Principalmente, lembrar o porque de eu não querer mais, sequer, lembrar.

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