trechos

. Ponto. Sempre sozinho. Às vezes, capaz de pôr fim a finais imorais que nem mereciam existir estampados escancarados nas capas dos nossos folhetins como vem acontecendo por aqui! Já que cravados, ou encarnados – como melhor convir. Neste ponto [de encontro] sugiro não tentar confrontrar – ou melhor – responder, somente. Tudo depende. Do ponto. . Qual é a dúvida? Preferes a uva ainda viva, ou queres ela já posta na taça de vinho – inteiriça e madura? Numa prosa, não tão confortável, eu admito!? Mas frente ao encontro vos falo menino! Não dá tempo nem para o hino, que no simbolismo místico, o predicado - já prejudicado, pelo próprio eu lírico escancarado e assumido neste porta-retrato sempre escondido atrás de outros objetos não tão ‘promíscuos’ aos olhos dos vizinhos. Um anjo que beira a estrada, copiosamente pavimentada em linear, para não ser capaz de ousar dobrar a própria sombra. Um vislumbre de um horizonte onde todos iraremos voltar.

Vai, idade!

Vai, idade! Vaidade! Com o tempo, ela simplesmente passa! Deixa de querer ficar presente. De se fazer presente. Ela existe, mas já não endurece a existência madura — e dura — de uma jornada pós-adolescência e adultescência! Permitam-me o neologismo! Ela já não é parte itinerante. É apenas integrante, coadjuvante de uma cena não tão importante na grande tela de quem aprendeu a ser protagonista, finalmente! Uma conquista interessante, do ponto de vista desta fiel amante do que é belo aos olhos — e amante do otimismo capaz de transformar quaisquer episódios ruins em boas colunas sociais, imorais e incomuns! Tal qual esta que vos escreve, nesta prosa tão intimista e teatral. Um desconforto quase camuflado de desabafo, em meio a um desencontro maquiado de rimas. Já que chegamos neste ponto… Já vos conto! Depois de certa idade, a gente mede o tempo em intensidade. E os minutos ora parecem metades de segundos, ora eternidades de uma espera sem nenhuma qualidade. E é por isso que abro o caminho só rindo! E sorrindo de verdade! Vai, idade! Não te envaideças comigo! Já fui vítima do espelho! Hoje, honestamente, a única coisa capaz de me fazer parar no tempo é um bom papo e um belo sorriso aberto pra mim, naquele momento! Me sorrindo! Sorrindo comigo!

Um lugar dentro de mim

Dizem que, antes de receber um nome, toda criatura nasce com uma pergunta. Alguns passam a vida inteira sem escutá-la. Outros a confundem com fome, saudade ou destino. A pergunta daquele viajante era simples. **Quem sou eu?** Mas ele não sabia disso. Porque nunca aprendera a olhar para si. --- Existia um vale onde quase nada mudava. No centro dele havia uma pedra. Enorme. Cinza. Imóvel. As chuvas vinham. Os ventos passavam. As estações se sucediam. E a pedra permanecia exatamente no mesmo lugar. Ao lado dela, fincado profundamente na terra, existia um espelho. Também imóvel. Não refletia apenas quem passava. Parecia desejar que tudo ao redor existisse apenas para lhe devolver uma imagem. O viajante crescera entre aquela pedra e aquele espelho. Nunca soubera seus nomes. Nunca imaginara que ambos carregavam um segredo. Desde muito pequeno acreditava que, em algum lugar do mundo, existia um espelho capaz de revelar quem ele realmente era. Afinal, sua lembrança mais antiga era um espelho. Ou, pelo menos, era o que pensava. Durante muitos anos acreditou recordar seu próprio rosto. Depois percebeu que não. O que guardava na memória era apenas o objeto. A moldura. O brilho do vidro. A superfície perfeita. Jamais conseguia lembrar do reflexo. Era como se alguém tivesse apagado justamente a única parte que importava. Então partiu. Passou a caminhar pelo mundo procurando espelhos. Encontrava espelhos d'água. Espelhos de prata. Vidros polidos. Metais. Lagos. Janelas. Olhava todos com urgência. Mas, sempre que tentava permanecer diante deles por tempo suficiente para descobrir quem era, alguma coisa acontecia. Sentia culpa. Medo. Vergonha. A impressão estranha de que havia algo profundamente errado em ocupar aquele espaço. E ia embora antes de conseguir enxergar. Começou a acreditar que talvez não tivesse rosto. --- Pelo caminho conheceu criaturas extraordinárias. Uma árvore lhe disse: — Crescer é lembrar da direção da luz. Um rio respondeu: — Não. Crescer é esquecer a forma e continuar correndo. As montanhas riram. Os pássaros discordaram. As estrelas permaneceram em silêncio. O viajante ouviu todos. Tentou ser árvore. Tentou ser rio. Tentou ser montanha. Tentou ser pássaro. Tentou vestir cada resposta encontrada como a imagem que deveria apresentar ao espelho do vale quando o encontrasse. Mas toda identidade emprestada machucava um pouco. Era como usar roupas feitas para outra criatura que por vezes o vestiam até que não suportasse mais a dor. --- De tempos em tempos voltava ao vale. A pedra permanecia imóvel. O espelho continuava fincado no mesmo lugar. A pedra jamais dizia muito. Seu silêncio parecia dureza. Seu peso parecia distância. Já o espelho falava sem usar palavras. Bastava existir. Era impossível permanecer perto dele sem sentir que qualquer gesto espontâneo precisava ser corrigido. O viajante não entendia. Sempre que uma música nascia dentro dele, calava. Quando queria dançar, endurecia o corpo. Quando desejava chorar, sorria. Quando uma cor o encantava, escolhia outra. Quando queria existir, diminuía. Aos poucos passou a acreditar que autenticidade era um perigo. --- Os anos seguiram. E a pergunta cresceu junto dele. Quem sou eu? Quem sou eu? Quem sou eu? Numa noite, já cansado de procurar respostas nos lugares errados, decidiu subir a montanha mais alta. Talvez, pensou, olhando o mundo inteiro de uma só vez finalmente encontrasse seu lugar. Mas encontrou apenas uma tempestade. Nunca vira nuvens tão densas. Nem ventos tão antigos. Os céus pareciam discutir consigo mesmos. Quando desceu de volta ao vale, a tempestade já havia chegado antes dele. O mundo inteiro respirava eletricidade. O ar parecia esperar alguma decisão. Então aconteceu. Um único raio. Não caiu sobre o viajante. Não caiu sobre a floresta. Nem sobre o rio. Caiu exatamente entre a pedra e o espelho. O estrondo pareceu partir o tempo ao meio. A pedra rachou. Pela primeira vez desde o início do mundo. O espelho explodiu em milhares de fragmentos luminosos. O silêncio que veio depois parecia o primeiro silêncio verdadeiro da existência. O viajante correu. Achava que encontraria apenas destruição. Mas encontrou revelações. A pedra, antes cinza e áspera, estava aberta. Seu interior era um universo. Cristais impossíveis refletiam a luz da tempestade como se carregassem pequenas constelações adormecidas. Toda aquela beleza vivera escondida durante toda a vida sob uma casca dura. O viajante chorou sem saber por quê. Ajoelhou-se diante da pedra. Pela primeira vez percebeu que dureza e delicadeza podiam morar na mesma criatura. Foi então que viu um dos cacos do espelho. Pequeno. Irregular. Quase invisível entre a terra molhada. Pegou-o com cuidado. Preparou-se para encontrar novamente apenas o velho objeto. A moldura. O brilho. A superfície. Mas, dessa vez... havia alguém olhando de volta. Parou de respirar. Era ele. Não exatamente como imaginava. Nem como tentara ser. Nem como o mundo dizia que deveria parecer. Havia dentro dele a mesma luminosidade impossível que acabara de descobrir na pedra. Seu corpo inteiro parecia feito de cristais esperando luz. Foi então que compreendeu. Nunca estivera procurando um espelho. Estivera procurando permissão. E aquele espelho antigo jamais refletira sua existência. Refletia apenas a si mesmo. Por isso sua memória guardara o objeto, mas nunca o reflexo. Não era incapaz de se enxergar. Jamais lhe haviam permitido aprender. Olhou novamente para o geodo aberto. Sorriu. Talvez a pedra nunca tivesse sido apenas uma pedra. Talvez também tivesse passado a vida acreditando que precisava esconder sua beleza para sobreviver. A tempestade não havia destruído ninguém. Apenas retirara aquilo que impedia a luz de sair. O viajante ergueu o pequeno caco. Nele, seu rosto se multiplicava em dezenas de pequenas faces luminosas. Lembrou-se de todas as versões de si que precisou abandonar para caber em expectativas que nunca foram suas. E compreendeu que nenhuma delas havia desaparecido. Tinham apenas se quebrado. Como um globo de espelhos. Sorriu outra vez. Porque finalmente entendia. Os cacos nunca haviam sido sinal de destruição. Cada fragmento devolvia a luz por um ângulo diferente. Enquanto o velho espelho exigia uma única imagem perfeita, os cacos libertavam infinitas possibilidades de existir. Olhou para o céu. As nuvens começavam a se abrir. As primeiras estrelas surgiam. Por um instante, não soube dizer onde terminavam os cristais do geodo e onde começava a Via Láctea. Então riu. Uma risada leve. Antiga. Como se sempre tivesse existido dentro dele. E seguiu caminhando. Não para descobrir quem era. Mas porque, pela primeira vez, havia encontrado um lugar dentro de si onde podia morar. E descobriu, enfim, que algumas pessoas não nasceram para ser espelhos. Nem pedras. Nasceram para transformar seus próprios cacos em constelações. E, desde então, onde quer que passasse, havia sempre alguém que, ao encontrar um pequeno brilho deixado pelo caminho, levantava os olhos para o céu e tinha a estranha sensação de que também era feito de estrelas.

A Menina que Ria da Cachoeira Verde

Havia uma menina que conhecia um portal. Ninguém mais sabia. Para os adultos era apenas um banheiro antigo, de azulejos verde-musgo, um pouco escuros, um pouco frios, iguais a tantos outros. Para ela, não. Era uma floresta. Uma cachoeira. Um mundo inteiro escondido atrás de uma porta. Todos os dias ela esperava ansiosamente pela hora do banho. Tinha apenas dez minutos. Mas aqueles dez minutos eram maiores do que o restante do dia inteiro. Assim que fechava a porta, tampava o ralo. A água ia subindo devagar. Não muito. Três ou quatro centímetros bastavam. Era o suficiente para transformar o chão em um espelho líquido. A água caía do chuveiro com tanta força que deixava de ser apenas água. Virava cachoeira. O vapor começava a abraçar as paredes. Os azulejos verdes escureciam lentamente, como pedras cobertas de musgo depois da chuva. E então acontecia. O banheiro desaparecia. A menina entrava na floresta. Ali, ninguém dizia como ela deveria existir. Ali, ela era sereia. Era princesa. Era exploradora. Era fada. Era cientista das plantas. Era cantora dos passarinhos. Conversava com peixes invisíveis. Escutava árvores responderem. Inventava idiomas que apenas as borboletas compreendiam. Penteava os cabelos imaginando que algas dançavam entre os fios. Às vezes ria sozinha. Às vezes mergulhava os dedos na água e desenhava rios que desembocavam em oceanos que só existiam dentro dela. Era naquele lugar que ela respirava. Era naquele lugar que o mundo finalmente fazia silêncio. E era somente ali que ela conversava com o Divino. Nunca fazia grandes pedidos. Conversavam como dois amigos que se encontravam sempre na mesma cachoeira. Ela contava como tinha sido o dia. O Divino parecia responder através do som da água. Até que um dia… Ela voltou diferente. Veio da rua carregando uma frase que não cabia dentro de uma criança. Alguém lhe dissera que existir daquele jeito era errado. Que, por ser quem era, um dia estaria distante do Amor. Ela não compreendeu exatamente o significado daquelas palavras tão feias. Mas compreendeu o medo que tomou seu coração. Entrou correndo no banheiro aquele dia. Ligou o chuveiro. E antes mesmo que o vapor pudesse cobrir as paredes a cachoeira começara a brotar de dentro dela desta vez. Sentou-se no chão, abraçando os joelhos. E transbordou aquela dor num choro solitário. Chorou como quem tenta lavar por dentro uma ferida que ninguém consegue enxergar. Depois levantou os olhos. Falou baixinho. — Se você está aqui… me mostra. Fez silêncio. Pensou mais um pouco. E sorriu entre as lágrimas. Sabia exatamente o que pedir. — Me mostra um coração! Porque, para ela, era isso que o Amor parecia. Um coração. Esperou. Olhou para o vidro embaçado. Para os azulejos. Para a água. Para o teto. Para as gotas escorrendo pelas paredes. Esperou os dez minutos inteiros. Nenhum coração apareceu. Quando a água esfriou, ela desligou o chuveiro. Saiu triste. Talvez o Divino estivesse ocupado. Talvez não tivesse ouvido. Talvez ela tivesse pedido errado. Dormiu abraçada à dúvida. Na manhã seguinte, levantou-se ainda em silêncio. Foi até a cozinha. Enquanto esperava o café, viu um desenho estranho nos veios do mármore. Parecia… um coração. Sorriu. Pegou um pedaço de pão. A massa havia aberto uma pequena bolha em forma de coração. No caminho para a escola, uma folha mordida por um inseto. Coração. Uma poça de lama. Coração. Uma pedra rachada. Coração. A espuma do sabão escorrendo pela calçada. Coração. A dobra da manga de uma senhora. Coração. As asas de uma borboleta pousada numa flor. Coração. As nuvens. As sementes. As cascas das árvores. As manchas das paredes. As pétalas caídas. Os desenhos das asas dos besouros. Os reflexos nas vitrines. Os galhos. As sombras. Os musgos. As poças. Os grãos de feijão. Os respingos de tinta. Quanto mais olhava… mais corações encontrava. Naquela noite voltou correndo para a cachoeira. Entrou na água antes mesmo de sentir sua temperatura. Riu. Riu tanto que o banheiro inteiro pareceu rir junto. — Você demorou! — disse ela. A água continuou caindo. O vapor começou a subir. Então compreendeu. O Divino nunca havia prometido aparecer dentro do banheiro. Quem havia mudado era ela. Desde o pedido da noite anterior, seus olhos tinham aprendido uma nova linguagem. O mundo inteiro sempre estivera respondendo. Ela apenas ainda não sabia ler. Passou a visitar a cachoeira todos os dias. Não porque precisava fugir. Mas porque aquele era o lugar onde aprendia a enxergar. Anos depois, quando perguntavam onde aprendera a acreditar no Amor, ela nunca respondia “na igreja”. Nem dizia “nos livros”. Muito menos “nas certezas”. Ela apenas sorria. Porque sabia que, em algum lugar da infância, existia um banheiro de azulejos verdes. Uma cachoeira escondida. E uma menina que, depois de pedir um único coração, acordou vivendo dentro de milhares deles. Desde então, nunca mais caminhou sozinha. Porque descobriu que o Divino tinha um jeito curioso de responder às orações. Às vezes, não mudava o mundo. Mudava os olhos de quem rezava para quê pudéssemos enxergar além do que vemos!

Transformando cacos em estrelas

Transformando cacos em estrelas Ultimamente tenho refletido sobre os multireflexos que produzi e produzo no mundo, como um globo de espelhos de discoteca, sabe? Notando que talvez o que antes eu achava que eram espelhos por conseguir enxergar-me só por dentro e ver a luz produzida no mundo; hoje posso perceber que havia ali a produção de luz própria, e que hoje os cacos de mim tornaram-se uma constelação enorme. Tento não pensar no tamanho, nem na quantidade de estrelas, mas na deliciosa sensação de saber que se é! Sigo aqui. Brilhando em cacos.

O Deco, O Dé, O Gui, O Sonhadorzinho.

Sonhadorzinho

Sonhadorzinho
Uma boa leitura, um momento de frescura pra uma vida dura.

Meu.

É meu, para mim! Quando escrevo, escrevo de mim para eu mesmo, expondo as vontades e dores que tenho na minha individualidade, sem necessidade de explanação, só como uma forma de retirá-los de dentro de mim, sem ter de esquecê-los no tempo. Guardo aqui, os momentos que chorei e sofri, e até os que sorri, para se precisar, lembrar. Principalmente, lembrar o porque de eu não querer mais, sequer, lembrar.

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