A Menina que Ria da Cachoeira Verde
Havia uma menina que conhecia um portal. Ninguém mais sabia. Para os adultos era apenas um banheiro antigo, de azulejos verde-musgo, um pouco escuros, um pouco frios, iguais a tantos outros. Para ela, não. Era uma floresta. Uma cachoeira. Um mundo inteiro escondido atrás de uma porta. Todos os dias ela esperava ansiosamente pela hora do banho. Tinha apenas dez minutos. Mas aqueles dez minutos eram maiores do que o restante do dia inteiro. Assim que fechava a porta, tampava o ralo. A água ia subindo devagar. Não muito. Três ou quatro centímetros bastavam. Era o suficiente para transformar o chão em um espelho líquido. A água caía do chuveiro com tanta força que deixava de ser apenas água. Virava cachoeira. O vapor começava a abraçar as paredes. Os azulejos verdes escureciam lentamente, como pedras cobertas de musgo depois da chuva. E então acontecia. O banheiro desaparecia. A menina entrava na floresta. Ali, ninguém dizia como ela deveria existir. Ali, ela era sereia. Era princesa. Era exploradora. Era fada. Era cientista das plantas. Era cantora dos passarinhos. Conversava com peixes invisíveis. Escutava árvores responderem. Inventava idiomas que apenas as borboletas compreendiam. Penteava os cabelos imaginando que algas dançavam entre os fios. Às vezes ria sozinha. Às vezes mergulhava os dedos na água e desenhava rios que desembocavam em oceanos que só existiam dentro dela. Era naquele lugar que ela respirava. Era naquele lugar que o mundo finalmente fazia silêncio. E era somente ali que ela conversava com o Divino. Nunca fazia grandes pedidos. Conversavam como dois amigos que se encontravam sempre na mesma cachoeira. Ela contava como tinha sido o dia. O Divino parecia responder através do som da água. Até que um dia… Ela voltou diferente. Veio da rua carregando uma frase que não cabia dentro de uma criança. Alguém lhe dissera que existir daquele jeito era errado. Que, por ser quem era, um dia estaria distante do Amor. Ela não compreendeu exatamente o significado daquelas palavras tão feias. Mas compreendeu o medo que tomou seu coração. Entrou correndo no banheiro aquele dia. Ligou o chuveiro. E antes mesmo que o vapor pudesse cobrir as paredes a cachoeira começara a brotar de dentro dela desta vez. Sentou-se no chão, abraçando os joelhos. E transbordou aquela dor num choro solitário. Chorou como quem tenta lavar por dentro uma ferida que ninguém consegue enxergar. Depois levantou os olhos. Falou baixinho. — Se você está aqui… me mostra. Fez silêncio. Pensou mais um pouco. E sorriu entre as lágrimas. Sabia exatamente o que pedir. — Me mostra um coração! Porque, para ela, era isso que o Amor parecia. Um coração. Esperou. Olhou para o vidro embaçado. Para os azulejos. Para a água. Para o teto. Para as gotas escorrendo pelas paredes. Esperou os dez minutos inteiros. Nenhum coração apareceu. Quando a água esfriou, ela desligou o chuveiro. Saiu triste. Talvez o Divino estivesse ocupado. Talvez não tivesse ouvido. Talvez ela tivesse pedido errado. Dormiu abraçada à dúvida. Na manhã seguinte, levantou-se ainda em silêncio. Foi até a cozinha. Enquanto esperava o café, viu um desenho estranho nos veios do mármore. Parecia… um coração. Sorriu. Pegou um pedaço de pão. A massa havia aberto uma pequena bolha em forma de coração. No caminho para a escola, uma folha mordida por um inseto. Coração. Uma poça de lama. Coração. Uma pedra rachada. Coração. A espuma do sabão escorrendo pela calçada. Coração. A dobra da manga de uma senhora. Coração. As asas de uma borboleta pousada numa flor. Coração. As nuvens. As sementes. As cascas das árvores. As manchas das paredes. As pétalas caídas. Os desenhos das asas dos besouros. Os reflexos nas vitrines. Os galhos. As sombras. Os musgos. As poças. Os grãos de feijão. Os respingos de tinta. Quanto mais olhava… mais corações encontrava. Naquela noite voltou correndo para a cachoeira. Entrou na água antes mesmo de sentir sua temperatura. Riu. Riu tanto que o banheiro inteiro pareceu rir junto. — Você demorou! — disse ela. A água continuou caindo. O vapor começou a subir. Então compreendeu. O Divino nunca havia prometido aparecer dentro do banheiro. Quem havia mudado era ela. Desde o pedido da noite anterior, seus olhos tinham aprendido uma nova linguagem. O mundo inteiro sempre estivera respondendo. Ela apenas ainda não sabia ler. Passou a visitar a cachoeira todos os dias. Não porque precisava fugir. Mas porque aquele era o lugar onde aprendia a enxergar. Anos depois, quando perguntavam onde aprendera a acreditar no Amor, ela nunca respondia “na igreja”. Nem dizia “nos livros”. Muito menos “nas certezas”. Ela apenas sorria. Porque sabia que, em algum lugar da infância, existia um banheiro de azulejos verdes. Uma cachoeira escondida. E uma menina que, depois de pedir um único coração, acordou vivendo dentro de milhares deles. Desde então, nunca mais caminhou sozinha. Porque descobriu que o Divino tinha um jeito curioso de responder às orações. Às vezes, não mudava o mundo. Mudava os olhos de quem rezava para quê pudéssemos enxergar além do que vemos!
O Deco, O Dé, O Gui, O Sonhadorzinho.
Sonhadorzinho
Uma boa leitura, um momento de frescura pra uma vida dura.








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